Por que o Vale?

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por Ieda Garcia

Essa é uma pergunta que ouço há décadas.
Um dos maiores questionamentos.
Pessoas que querem se envolver num trabalho voluntário, alegam que o Vale do Jequitinhonha é muito longe e que seria mais prático prestar assistência social no ABC, assim poderiam acompanhar de perto as atividades desenvolvidas pela Fraternidade Maria de Nazaré.
Bem…então lá vem a história….
Desde jovem tive vocação para ajudar as pessoas.
O sofrimento humano e a privação do essencial para a sobrevivência me incomodavam.
Assim que me vi com a possibilidade e autonomia suficiente, comecei a buscar um meio de minimizar esse estado de coisas.
Como não tenho vocação política e nem religiosa, escolhi os caminhos do coração.
Encontrei pessoas importantes que pensavam como eu, que me ajudaram a formar uma consciência humanitária e universal.
Impossibilitada de reverter às causas da miséria, que tem raízes no poder, resolvi então iniciar uma função de assistência social.
Visitei por longos anos favelas, o leprosário, o Amparo Maternal, sempre com pessoas que estavam ligadas ao mesmo objetivo.
Fiz grandes amizades que me deram todo suporte e apoio. Até que em determinado momento, percebi que todos esses locais por nós atendidos já eram assistidos por entidades religiosas que já vinham há muito tempo exercendo essa função, aliás, com muita qualidade.
Fiquei desmotivada, pois meu principal objetivo era aliviar a carga de quem não tem opção.
Começou a germinar dentro de mim um forte apelo em buscar pessoas que se encontrassem em total desamparo de qualquer segmento da sociedade.
Busquei inspiração numa velha amiga de caminhada, que nasceu no Vale do Jequitinhonha.
Ela descreveu detalhadamente a situação de pobreza e abandono daquela população.

Então, parti, abdiquei dos felizes natais em família para descobrir o sentido real dessa data tão comemorada por todos.

Eu e meu companheiro apenas nessa longa estrada.
Compartilhamos e conseguimos viver um pouco de humanidade presentes nos rostos de pessoas que tiveram alimento no prato…uma criança feliz com uma bola ou uma boneca nos braços…e um fash de esperança nos olhos.
Não tive duvida, ali era o meu lugar!
Fiquei praticamente só, as pessoas que até então me apoiavam não aceitaram o desafio.
Não desisti. E os resultados já começaram a aparecer. Surgiram outras pessoas que foram fundamentais para a criação do Centro de Convivência Curumim.
A doação do terreno, a doação de um montante para a construção da Sede.
E da Fundação Elijass Gliksmanis:
Poço artesiano
duas salas para cursos e artesanato,
cem cestas básicas mensais,
uma cozinha semi-industrial
auditório para palestras (capacidade 10 pessoas)
lojinha para venda de roupas semi-novas (para a renda para pagamento de luz, agua e telefone)
Além disso a doação de um pequena casa ampliada e inaugurada como a primeira casa de cromoterapia da região: Fraternidade Pena Branca.
Construção da sala de cinema (onde são apresentados filmes educativos).

O trabalho pedagógico realizado por uma das voluntárias, que resistiu e persistiu a todas as dificuldades e a um pequeníssimo grupo que ainda se matem firme no propósito.

Graças ao apoio do Ayravata, dos alunos do Swiss Park e outros colaborados temos sobrevivido.
Com a nossa presença no Vale desde 1991 tenho certeza que muita coisa mudou.

A presença desse pequeno grupo é o suficiente para que os moradores de Lelivéldia e Região saibam que não estão sós nesse momento cármico doloroso. Estamos lá, não só para levar o alimento, a roupa, o medicamento, o brinquedo, mas principalmente a solidariedade.
Deixamos quatro vezes ao ano nosso conforto, trocando as férias, a superficialidade do consumo, o tempo desperdiçado no computador, para mergulhar por alguns dias em sentimentos de fraternidade e reflexão sobre a nossa vida tão desprovida de amor.
E então me pergunto:
Quem é beneficiado?

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