Pressa

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A pressa nos deixa loucos. Aliás, em tempos de globalização, vivemos todos loucos.
Sabemos de tudo ao mesmo tempo, numa velocidade tão alucinante que nosso pobre cérebro, máquina perfeita como é, desiste. Quem já não se pegou morrendo de rir de uma piada engraçadíssima enviada por e-mail e no dia seguinte, querendo contar a um amigo, nota que a esqueceu completamente?

Quando estamos um pouco menos agitados, é fácil observar como estão mesmo loucas as pessoas. Elas andam pelas ruas olhando sem ver. É comum levarmos esbarrões de pessoas em ruas de média movimentação e quando pensamos em nos zangar percebemos que a pessoa não fez por querer, e pior, sequer viu que esbarrou em você e mais ainda, talvez ela nem saiba onde esteja ou o que está fazendo. Está no piloto automático, como quase todos os outros que estão a seu lado naquele momento, naquelas ruas ou lugares. É a pressa.. Pressa para que? Gosto de observar as pessoas, isto é, quando também não estou ligada no piloto automático. Gosto de ver o vai e vem das pessoas na rua onde moro. Pela manhã (moro numa subidinha), observo as pessoas subindo para o trabalho. Sobem devagar, alguns solítários, outros em bando, alguns ouvindo rádio de pilha moderno e bem alto, outros conversando sobre o que aconteceu ontem, enfim, todos sobem devagar…

À tarde é uma farra (não pensem que não faço nada e que fico o tempo todo na área bisbilhotando a vida alheia, é que estou de férias). Todos descem correndo. Correndo e falando tão alto e ao mesmo tempo, que alguém que visse a cena de fora, poderia pensar que houve uma fuga do hospício. Chega a ser engraçado.

Penso, para que correr tanto? Será que vão pegar o último trem às cinco da tarde? Ou será que correm porque suas casas estão prontas para fugir? Nunca perguntei, até porque eu teria que correr ao lado deles e já não tenho tanta vontade assim de correr. Mas posso imaginar algumas respostas. As mulheres diriam que precisam chegar cedo para começar sua segunda jornada. Os homens talvez, precisassem ir ao jogo ou tomar uma cerveja no bar com os amigos, ou outra coisa qualquer. Seja qual for a resposta não consigo entender porque a pressa. Continuo sem resposta. Eu também sofro de “pressite”, especialmente quando, como todas as pessoas, tenho mais atividades para fazer do que posso suportar. E aí eu me pergunto: Mas para que a pressa? E também fico sem resposta. Não sei.

Mas agora, para terminar, estou me lembrando de um fato que ocorreu comigo há alguns anos. Era uma tarde de primavera. Eu, estava em um ônibus atrasada para algum compromisso que já não me lembro. Estava irritada, porque quando estamos atrasados, tudo acontece para que fiquemos mais atrasados ainda. Quando estava perto do ponto em que iria descer, levantei-me apressada, puxei a “cordinha” e fui para a porta. Claro que na porta tinha uma velha.(perdão pela palavra velha), é uma força de expressão para vocês entenderem o que aconteceu.

A velha era super lenta. O ônibus parou, ela olhou para o cobrador, olhou para o motorista, fez tchau para uma criança e lentamente foi descendo os dois longos degraus da escada do veículo. Eu já estava quase estourando de raiva e quase derrubando a velha do ônibus. Quando consegui descer, aquela coisa bem engraçada. O sinal estava aberto para ela e fechou bem na hora em que pus o pé na faixa de segurança. Espera o semáforo abrir… quase um milhão de segundos…

Consegui atravessar a rua, mas de repente, lá estava a senhora.. Sim, agora, uma senhora, uma bela senhora de cabelos todos brancos, de fisionomia radiante, olhando para cima. O que estaria ela olhando? Também olhei para cima e vi uma cena desconcertante. Um maravilhoso pé de Ipê-roxo tão carregadinho de flores, tão majestoso, que tirava mesmo o fôlego de qualquer um que estivesse sem pressa. E olhando ainda mais para cima, um céu azul, mas tão azul que quase doía as vistas. Parei, não do lado da senhora, porque nesse momento eu já estava morta de vergonha pelo meu comportamento tão rude. Mas já curada de minha pressa, entegrei-me ao roxo do pé de Ipê, ao azul do céu e ao milagre daquele instante.
Ali, eu experimentei a Paz.

Por Lídia Calisto

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